os 1990 são considerados por muitos uma década nula.
não tiveram o brilho dos 80s, nem as revoluções dos 60s e dos 70s...isto no mundo em geral. no meu mundo foi (até ver) A década.
a década das descobertas. do amor a dois, do sexo, das paixões platónicas, dos primeiros desgostos amorosos. foi a década de fazer amigos para a vida. a década do caos interior, dos cadernos de desabafos, dos livros que marcam, dos filmes que ficam. foi a década em que o corpo mudou, em que um pato se fez cisne.
foram os anos das doc martens e das saias compridas, mas também das calças largas e dos airwalk. foi a altura dos all star, da roupa da feira da Ladra, das calças justas, das camisas aos quadrados, do cabelo curto, das madeixas de cores, dos furos nas orelhas, do primeiro desenho no corpo.
foi altura de ganhar complexos, de os enfrentar e também de os perder. foram os anos de liceu. a entrada na faculdade. os momentos de "o que quero ser quando crescer?"
foi uma altura de descobertas constantes. foi a década de Londres, de NYC e de Barcelona. os dias de me sentir uma mulher e os de ser uma criança. foram as primeiras noitadas, as primeiras mocas, as primeiras bebedeiras. foram os beijos de língua, os amassos. os risos e choradeiras por tudo e por nada. as primeiras noites em casa sozinha. as mentirinhas piedosas.
também foi a década dos primeiros concertos "on my own". foram os Metallica em Alvalade, os Smashing no Campo Pequeno, os PJ no Dramático de Cascais (foi estar a dois passos do Eddie Vedder e ele sorrir para mim).
Foi o punk-hardcore, a pop europeia, o hip-hop. os Cardigans. os concertos no Ritz, no Johnny Guitar (foi cruzar-me contigo a primeira vez e nunca mais me saires da cabeça). os X-Acto e os Skamioneta. Foi ir a Coimbra ver os Violent Femmes, ao Porto ver os dEUS, a Faro ver os NoFX. ir num dia e voltar no primeiro comboio do dia seguinte. foi a descoberta de mil bandas de garagem. ouvir o Henrique Amaro, comprar maquetes e vinis. a altura do DIY.
foi o Kurt Cobain, o Shannon Hoon e o Andrew Wood. perceber que se vive depressa. que há quem não aguente isto. que o desespero pode ser tão grande que não dá mais.
foi escolher entre os Blur e os Oasis. mas também foi abraçar causas mais sérias.
Foram as noites nos passeios do Bairro Alto, as madrugadas no Jardim de São Pedro de Alcântara. as idas ao extra. as noites quentes de Cabanas, nós e uma guitarra. os dias inteiros em praias desertas, só nós, o sol e o mar. foi a Ilha de Tavira. a descoberta das costas alentejana e vicentina. as primeiras noites em tendas.
as primeiras férias com amigos. as primeiras passagens de ano com amigos. os amigos a roubarem espaço à família. a parvoíce de achar que a família é um empecilho. os momentos parvos de rebelde sem causa.
foram os anos do Singles, da Ruptura Explosiva e do Estranhos Prazeres. foi ver estes filmes vezes sem conta. foi sonhar com Seattle, com Tóquio, com Belfast e com Itália (toda a Itália).
foi tudo e foi nada. foi um misto de coisas, momentos, pessoas (boas e más). foram passos dados (ora mais firmes, ora mais a medo) a caminho de qualquer coisa que ainda não sei muito bem o que é.
foi uma parte de uma vida. da minha vida.